Vozes de Mulheres que Sofrem Violência
FERREIRA GULLAR expressa em seu poema “MUITAS VOZES”:
“Meu poema
é um tumulto:
a fala
que nele fala
outras vozes
arrasta em alarido.
Estamos todos nós
cheio de vozes
que o mais das vezes
mal cabem em nossa voz”
Na minha escuta das vozes das mulheres, ressoam forte as vozes de mulheres que gritam e seus gritos não são ouvidos. São mulheres que sofrem de violência por parte de seus companheiros, sentem-se impotentes para reagir e submetem-se às pressões externas que se expressam, principalmente, por meio de crenças culturais e familiares.
Ouço vozes de mulheres de diferentes culturas, raças, etnias, classes sociais.
A violência acontece em escalada e se manifesta com maus-tratos físicos e/ou psicológicos e tem como objetivo manter o poder e o controle da relação da pessoa violenta sobre a pessoa violentada. A violência psicológica não deixa marcas aparentes e, portanto, é mais difíciI de ser detectada. Expressa-se através de reprovações constantes e/ou indiferença. Mas todas essas manifestações passam uma mensagem de menosvalia da mulher e de sua não legitimação como um ser com vontade própria.
A primeira etapa da violência é sutil. Consiste em manifestações que atingem a auto-estima da mulher. O homem desvaloriza suas opiniões e iniciativas, não leva em conta seus desejos. Busca a anulação da pessoa violentada e o sentimento que aflora nela é de nulidade.
A etapa que se segue é a violência verbal direta. O agressor através de verbalizações desqualificatórias, ameaças e insultos cria um clima de medo que pode levar a mulher a um quadro depressivo. É nessa etapa que, de um modo geral, as mulheres procuram ajuda nos serviços de saúde e nos consultórios. Num primeiro momento apresentam queixas que, de um modo geral, são crônicas, sendo algumas de origem psicossomática, tais como: insônia, dificuldade de concentração, transtornos digestivos, dores generalizadas, etc. É importante que os profissionais da área da saúde estejam atentos a esses sintomas. Trata-se de um grito de alerta das humilhações a que estão submetidas as mulheres, as quais, por medo e/ou vergonha, as mantêm em segredo e o segredo faz com que permaneça a situação violenta.
Seguindo a escalada, se dá a violência física propriamente dita.
É preciso criar um espaço no qual o não-dito seja falado. Historicamente as mulheres aprenderam a calar, a não denunciar, assumindo uma atitude conformista diante do sofrimento. Os homens aprenderam a ser masculinos através de crenças culturais centralizadas na idéia de como o homem não deve ser: “homem não pode ser frágil”, “homem não chora”, “homem não fala de sentimentos”, etc. Assim, eles têm que cumprir uma série de expectativas culturais, que, uma vez incorporadas, os levam a não manifestar o seu lado humano e solidário. Todos nós somos fortes e frágeis, seguros e inseguros, temos medo e coragem. Isso faz parte da nossa humanidade. Nenhuma emoção é permanentemente pura nem pertence a um dos gêneros, masculino ou feminino.
A desconstrução das crenças familiares e culturais que aprisionam os indivíduos em comportamentos baseados nas noções esteriotipadas de gênero levará homens e mulheres a uma nova visão do seu papel no mundo e das relações no processo de construção de uma vida digna de ser vivida.
Finalizo com o poema de Ferreira Gullar:
“Meu poema
é um tumulto, um alarido:
basta apurar o ouvido”.
18/05/2007
por Nair Teresinha Gonçalves – Psicóloga e terapeuta familiar
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