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Segredos e Cegueiras em família: Adoção

Entrevista realizada por Adriana Mioto, graduada em Letras, para a Revista Rainha dos Apóstolos (n. 946, jul/03), com a psicóloga Iara L. Camaratta Anton.

A partir de que momento começa-se a falar ao filho a sua origem verdadeira?

Não há como determinarmos um momento específico. Se os pais adotivos encararem o fato com naturalidade e afeto, ele passa a circular pelo ambiente de um modo completamente espontâneo.


A palavra "espontaneidade" origina-se em "spons", ou seja "sopro vital". A verdade impõe-se por si só, sem traumas, na medida em que assuntos dessa natureza circularem pela casa, a partir dos mais variados estímulos, como uma gestação entre familiares e amigos, um filme, o nascimento de um animalzinho de estimação... Estes eventos do cotidiano despertam curiosidades, colocando em cena assuntos que mobilizam fantasias e emoções.


Por vezes, os pais adotivos lastimam seu pequeno filho, vendo nele um serzinho rejeitado justamente na fase da vida em que mais indefeso era. Podem esquecer que, por trás desta vida, existe alguém que gerou, permitiu nascer e entregou para quem, em princípio, por "n" razões, teria melhores condições de cuidar de seu bebezinho.
Que razões podem levar um homem e uma mulher a não assumirem àquele a quem trouxeram ao mundo? Podem ser as mais diversas, mas penso que só uma postura nos compete: seja lá o que for, estes pais que doam seus filhos não estão em julgamento e merecem respeito. Havendo tal sentimento, provavelmente será menor a tendência a que se lastime o bebê entregue para adoção.


A lástima pode gerar uma tendência a uma dissociação um tanto perigosa: de um lado, situar-se-iam os "pais maus", que doaram seu filho, e de outro os "bons pais", que o acolheram. Ora, todos nós temos nossos aspectos relativos, nossas virtudes e nossas limitações, nossos bons e maus momentos. A necessidade de se salientar como negativo o que está fora e como positivo o que está dentro pode dificultar informações sobre a origem do bebê, tanto quanto o seu oposto: pais adotivos que se sentem muito culpados por suas impaciências e falhas tendem a ter muito medo de serem acusados, castigados e abandonados. Como tranqüilamente revelar, nestes casos, a adoção?


Na medida em que houver o predomínio de fatores positivos, tais como a ternura, o respeito, a acolhida, não se criam espaços para segredos e cegueiras. Todos sabem, não há o que e porque esconder. A ansiedade, uma vez diminuída, também faz com que não se tenha necessidade de ficar falando nesse assunto a todo o momento, ou divulgá-lo aos quatro ventos.

Por que, em muitos casos, a adoção torna-se um segredo familiar quais os comportamentos gerados pelo segredo. Ele realmente protege de algo?

Atrás dos segredos familiares escondem-se muitos sentimentos e fantasias perturbadores e, por vezes, contraditórios, tais como orgulho, vaidade e vergonha; piedades e impiedades; jogos de poder e de submissão; crenças e valores desencontrados; discursos amorosos em favor de anseios egoístas; medo de causar um enorme sofrimento ao filho, de ser acusado por suas próprias impaciências ao serem reconhecidos como pais adotivos, de sofrer abandono, etc.
Penso que, em um nível consciente, o receio de que o filho sofra muito por se saber doado por seus pais biológicos esteja entre as razões dominantes. Aqui se encaixam, particularmente, aquelas adoções que seguiram a quadros de violência familiar, com intervenção de conselhos tutelares, justiça e vontade popular; e/ou a abandonos em situações particularmente dolorosas, em lixões, após tentativas de aborto, etc. O medo de ser rejeitado ou o mal-estar por assumir, digamos, uma dificuldade em ter filhos naturais também justifica, muitas vezes, a criação de segredos.
Atualmente, um fantasma que ronda muitas famílias onde ocorrem adoções está no fato de a lei amparar ao filho o desejo de conhecer a seus pais biológicos. E agora?!...
Quando há segredos, necessariamente haverá também conseqüências nefastas pois mantê-lo exige um enorme dispêndio de energia por parte de todos os envolvidos. Omissões e mentiras apresentam-se e acumulam-se. Perguntas ficam sem respostas e zonas de cegueira se instalam. Crianças cujas famílias mantém segredos importantes que lhes diz respeito tendem a desenvolver bloqueios perceptivos, associativos e afetivos para que lhes seja possível seguir negando as evidências e obedecendo ao mandato familiar pré-consciente: "aqui, não está acontecendo nada; e, por favor, não me pergunte a respeito!"
É razoavelmente comum que o segredo se manifeste através de atuações, ou seja, a criança revela através de seu próprio comportamento aquilo que, de alguma forma, "sabe" porque "sente". Exemplos poderiam ser inúmeros.

As etapas de desenvolvimento psicológico e mental de um filho adotivo são diferentes da de uma pessoa criada pelos pais biológicos?

Seguramente não!
Uma criança adotiva, como qualquer outra, leva as marcas de sua história, do modo como é acolhida, cuidada, amada, estimulada, contida... E todos nós temos nossos traumas, nossas feridas, e temos que aprender a lidar com os mais variados danos ao nosso narcisismo pessoal, desenvolvendo uma auto-estima adequada, capaz de favorecer nossa integração saudável ao meio onde vivemos.
O ambiente onde uma pessoa se desenvolve é decisivo e seria muito ameaçador interpretar-se percalços naturais como indícios de má índole. Um exemplo disso está na criança que, aos dois anos de idade, faz suas tão naturais crises de birra e seus pais começam a se perguntar como seria o caráter de quem a gerou...

Quais as conseqüências para o relacionamentos interfamiliar quando o filho descobre, por outros meios que não os pais, que é adotado?

Perplexidade, tendência a não crer nas revelações, sentimento de traição e muita dor tendem a acontecer. Surgem perguntas como: "por que não me falaram? por que alguém desistiu de mim? por que me foi revelado desse modo um segredo tão vital, que me dizia respeito? que mais estão me escondendo? em quem posso eu confiar? o que faço de minha vida? o que vai ser de mim?..."
Insegurança, raiva, desejos de retaliação e sentimentos depressivos tendem a aparecer, com maior intensidade quando uma revelação é feita nestas circunstâncias, sem o menor preparo e consideração. A prática clínica demonstra que os resultados são mais conflitivos quando a revelação é feita intempestivamente a um filho em sua adolescência do que em sua infância ou idade adulta.

Externar e debater esse tema é o caminho para resolver os conflitos? Como o assunto deve ser tratado?


Na verdade, cada família tem suas maneiras particulares de lidar com esse assunto. Simplicidade no diálogo, acolhida com relação aos mais variados sentimentos, busca de ajuda profissional (tipo terapia de família) quando esse assunto desperta muita ansiedade ou maiores conflitos estão entre as medidas que tendem a trazer bons resultados.

A descoberta desse segredo pode provocar a separação dos familiares?

Tenho para mim que uma família onde há predomínio de segredos acerca de temas tão vitais como aqueles que dizem respeito à nossa própria origem é uma família separada. Separada justamente por sua falta de transparência, de clima para intimidade e cumplicidade. Assim sendo, a revelação desse segredo pode resultar num rompimento traumático, quando em circunstâncias desfavoráveis, mas pode também ter um resultado diametralmente oposto: aproximar, unir, confirmar um vínculo criado por amor e desenvolvido com amor.

Qual acompanhamento pais e filhos devem ter?

Na medida em que a adoção constituir-se em tabu e despertar muita ansiedade, possivelmente uma ajuda terapêutica seja a melhor indicação: individual, de casal ou de família.
O posicionamento e o apoio de familiares e amigos poderá ter muita influência, positiva ou negativa.

Quais os principais conflitos do filho adotivo? Como responder a eles?

O fato de ter sido deixado por seus pais biológicos com certeza mexe muito. Por mais que se pense em possíveis justificativas ou atenuantes, repercute dolorosamente. Mas, sem nenhuma exceção, todos nós passamos por traumas e, além disso, muitos de nós fomos criados por pais biológicos que talvez tivessem agido muito melhor se nos entregassem a cuidados de terceiros. Em outras palavras: nós, os pais biológicos, não necessariamente somos bons pais e nem merecemos aplausos por estarmos criando os nossos filhos. Isso que afirmo pode ser duro, mas é verdade e não há porque negarmos. Então, um filho adotivo pode desenvolver grande capacidade de resiliência, força de ego, uma ótima estrutura física e psíquica, vivendo uma vida que vale a pena ser vivida. Com certeza, muitos filhos adotivos tem tudo para bendizerem àqueles que os geraram e trouxeram ao mundo, bem como aqueles que os acolheram e os tem acompanhado em seu desenvolvimento. Muitos filhos adotivos são fortes, saudáveis e sentem-se felizes por serem quem são e como são: óvulo e espermatozóide que deram certo, pessoas que estão dando certo. Muitos pais que doaram seus filhos sentir-se-iam completamente emocionados e gratificados se pudessem saber quão bem estão se desenvolvendo eles. Muitos pais adotivos gostariam de dar o seu melhor abraço àqueles que, direta ou indiretamente, doaram seus filhos a seus cuidados. Conflitos existem, invariavelmente, apresentando-se diante de cada um de nós dia após dia, momento após momento. Cabe-nos resolvê-los e, então, nos sentiremos plenamente satisfeitos.

O que o fato dessa pessoa ser adotada influencia nos relacionamentos sociais desse indivíduo?

Em nossas vidas, os fatos são inter-ligados e tudo influencia em tudo. A maneira como se constrói nossa subjetividade, como interpretamos os fatos vividos, como resolvemos nossos conflitos internos e interpessoais, como aprendemos a contar nossa própria história... estes são alguns dos muitos fatores que influenciam nos relacionamentos sociais. Vale para filhos naturais ou adotivos, vale para famílias onde há cegueiras e segredos ou clima para intimidade e cumplicidade...

O que é preciso ser feito para aprimorar afetiva e psicologicamente uma relação com filhos adotivos?


Simplicidade, espontaneidade, respeito mútuo, responsabilidade por seus atos, limites... amor, muito amor!

Síntese de currículo:

Iara L. Camaratta Anton
Psicóloga - CRP 07-0370
Especialista em Psicologia Clínica (PUC / RS)
Especialista em Psicoterapia de Orientação Psicodinâmica (PUC / RS).
Formação em Psicoterapia de Casal e de Família (DOMUS / RS).
Formação em Psicanálise dos Vínculos - Instituto Contemporâneo de Psicanálise e Vincularidade - RS.
Vice-presidente da AGATEF - Associação Gaúcha de Terapia Familiar
Professora do Curso de Especialização em Terapia de Família da USBL, Londrina, PR
Autora dos livros:
Homem e Mulher - Motivações Inconscientes (Sagra - 1991)
Homem e Mulher - seus vínculos secretos (ARTMED - 2002)
A Escolha do Cônjuge - um entendimento sistêmico e psicodinâmico (ARTMED - 2000)


18/05/2007
por Iara L. Camaratta Anton

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