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Terapia Familiar em Casas Lares

Autoria: Leila Sigal Suslik -  Assistente Social, Terapeuta de Família e Casal. Profª convidada do Curso de Formação em Terapia de Casal e Família na Clínica de Psicoterapia – CLIP. Secretária do Conselho Deliberativo e Científico da Associação Brasileira de Terapia Familiar -ABRATEF – Gestão 2006-2008.

 

Resumo

 

O presente trabalho é um relato vivencial que descreve um processo de Terapia Familiar realizado com dois grupos de adolescentes abrigados no sistema de Casa Lar e seus Pais Sociais. O atendimento foi realizado durante dois anos no local de abrigagem, sendo o primeiro em co-terapia e o segundo com uma terapeuta trabalhando em cada grupo. Por ser uma experiência única, procurou-se apresentar a forma como esse trabalho foi sendo desenvolvido enfocando algumas cenas que construíram ressonâncias nas terapeutas e como essa vivência foi utilizada para ampliar o espaço de conversação do grupo.

Palavras-chave: abrigagem, terapia familiar, conversação, ressonâncias 

 

Family Therapy in Foster CareAbstract

The goal of this work is to describe a family therapy process with two groups of teenagers in foster care and their social parents. The therapy lasted for two years and took place at the foster house. The first year consisted of a co-therapy process, and the second followed with one therapist for each group. As a unique experience, this paper is a personal narrative that focuses on unique and specific scenes that generated enough resonance in both therapists. It also describes how those scenes were used to expand the group conversational space.

Keywords: fostering, family therapy, conversation, resonance 

 

Introdução

O presente trabalho visa a descrever um processo de Terapia Familiar com adolescentes e Pais Sociais em Casa Lar. Foi desenvolvido como parte da primeira experiência de implantação de Casas Lar no município de Porto Alegre, a partir do conveniamento com quatro ONGs. Através dessas parcerias, foram acolhidas 30 crianças e adolescentes, cujos vínculos familiares estavam rompidos e sem qualquer possibilidade de retorno à família (em razão de maus tratos, abuso sexual, abandono ou negligência).Para iniciar, quero situar o meu contexto de trabalho, para que se saiba e se conheça o lugar a partir do qual falo. Penso que o que me define profissionalmente é ser Assistente Social há 36 anos. Tenho 22 anos de trabalho na área da saúde mental em nível de internação e ambulatorial, e sou Terapeuta de Família e Casal há 26 anos. Minha prática transita em contextos diversos, o que significa ter como clientes pessoas pertencentes a uma multiplicidade de grupos com valores, crenças e costumes construídos em suas famílias, grupos, comunidades e sociedade a que pertencem e que constituem as lentes culturais com que cada qual vê o mundo, o outro e a si mesmo. 

 

Abrigagem Modalidade Casa Lar

O Programa de Abrigagem Modalidade Casa Lar1 (FASC) possibilita o atendimento a crianças e adolescentes que necessitam da medida de proteção. É utilizado como último recurso, visto que tanto o retorno à convivência familiar e comunitária a médio, curto ou longo prazo, quanto a colocação em família substituta não são possíveis. Os motivos que levam a esta situação são diversos. De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (1990) a abrigagem é uma medida provisória, utilizada como transição para a colocação em família substituta, não implicando a privação de liberdade.Para que se efetive a abrigagem em Casa Lar, faz-se necessário que tenham sido esgotadas todas as possibilidades de retorno da criança ou adolescente ao convívio familiar. Também é avaliada a possibilidade de colocação imediata em família substituta através da adoção, guarda ou tutela. Somente depois de ter resutado improdutivas as tentativas citadas é que se deve indicar a transferência para o Programa. Ainda deve-se avaliar se tal transferência será adequada e benéfica para a criança ou adolescente que usufruirá do abrigo. As crianças e adolescentes devem ser oriundas da rede de abrigagem do Município e possuir situação do poder familiar definida. Situação de Poder Familiar definido significa que os pais ou responsáveis pela criança ou adolescente tiveram suspenso ou destituído seu poder familiar ou este é órfão, não possuindo responsáveis por seus cuidados. Esta avaliação deve ser executada pelo abrigo de origem e pelo Juizado da Infância e Juventude, órgão responsável pelas tratativas legais e processuais (FASC).O Programa de Abrigagem Modalidade Casa Lar é desenvolvido em um núcleo familiar ou com Pais Sociais, que moram no Lar, em regime de exclusividade com tarefas  administrativas e no cuidado das crianças e adolescentes, localizado na comunidade. Nessas instituições são abrigados, individualmente ou em grupo de irmãos, até o máximo de oito crianças ou adolescentes. O prazo de permanência na Casa Lar é indefinido devendo a criança ou adolescente ser preparada para a vida adulta e para a saída do espaço protetivo quando completar 18 anos (FASC, 2005). 

 

Convite para a realização de terapia familiar na Casa Lar

O contato inicial foi feito pela Assistente Social coordenadora do Programa de Abrigagem Casa Lar no ano de 2000 ao Núcleo das Relações Familiares (NURF). Segundo ela, os coordenadores de duas Casas Lares, Marcelino (35 anos) e Maria Clara (30 anos), solicitaram atendimento aos abrigados. Corroborando com essa solicitação, o ECA2 prevê como uma obrigação das instituições de abrigagem, no artigo 94 parágrafo IX, oferecer cuidados psicológicos necessários às crianças e aos adolescentes. A diferença é que nesse momento se estava buscando ajuda para o grupo dos adolescentes abrigados. Era um grupo de sete adolescentes masculinos residentes em uma sociedade religiosa e outro de sete adolescentes femininas, residentes em outra instituição com a mesma identidade religiosa. Ambas as instituições se localizavam na zona sul de Porto Alegre. Na avaliação da coordenadora, a abordagem da Terapia de Família seria mais adequada e por isso estava entrando em contato com o NURF.

 

 Organização do trabalho e da equipe

Em um primeiro momento, Ana Ibraima Simões da Cunha, minha amiga e colega, e eu tivemos uma reunião com a Coordenadora do Programa e com os Pais Sociais, com o objetivo de esclarecer o pedido de ajuda. Na ocasião, foi senso comum de todo o grupo que a Casa Lar apresenta uma configuração familiar, representada pela figura do Pai Social, como cuidador dos adolescentes e, como decorrência deste papel, as facilidades e dificuldades inerentes ao seu desempenho. Essa discussão confirmou a possibilidade de realização de um tratamento familiar nesse sistema de família substituta.Como parte do segundo momento do trabalho, foram combinados encontros nas próprias Casas Lares, com a participação dos adolescentes, dos pais sociais e de duas terapeutas. O primeiro encontro com cada grupo teve o objetivo de externalizar, seguindo a proposição de Morgan3, que enfatiza que as conversações externalizadoras estabelecem um contexto no qual as pessoas experienciam elas mesmas como separadas do problema; as dificuldades percebidas no cotidiano, por parte dos pais sociais e por parte dos adolescentes e planejar como o espaço de terapia poderia ser útil no processo de desenvolvimento de cada grupo. Encontros nesse formato foram realizados por um ano, uma vez por semana, com duração de uma hora. No segundo ano, cada terapeuta assumiu um grupo, e seguiu o trabalho com os mesmos objetivos. O processo de troca de experiências entre as duas co-terapeutas, após cada reunião, continuou do início até o final do trabalho.Durante as reuniões houve uma preocupação em criar um contexto de colaboração no qual adolescente, pais sociais e co-terapeutas tivessem a oportunidade de construir novas formas de compreender a realidade na qual estavam inseridos. O texto que segue descreve algumas experiências vivenciadas durante esse projeto e que tiveram ressonância significativa para mim. No entendimento de Elkaïm4“a ressonância não é um fato objetivo, não se trata de uma verdade velada que devemos fazer surgir através de um ponto em comum dos diferentes sistemas. Ela nasce na construção mútua do real que se opera entre aquele que nomeia e o contexto no qual ele se descobre nomeando-a” (p.171).

 

 A preparação da equipe

O primeiro encontro com os grupos foi repleto de expectativas. Entre as inúmeras questões que me inquietavam, destaco:

1) Como será o local do encontro?

2) Vou me sentir confortável em atender em um contexto distinto do consultório?

3) Como serei recebida pelos grupos? E pelos pais sociais?

4) Será que os grupos de adolescentes participaram do pedido de ajuda?

À medida que construía minhas expectativas, pensava que o grupo também estaria construindo as suas expectativas para o encontro. Comecei a refletir e imaginar qual seria minha proximidade com as pessoas com quem iria me encontrar. Cheguei a pensar: se levantar muitas hipóteses, será que não me afastarei deles? Na tentativa de encontrar respostas para as minhas questões, optei por viver intensamente cada momento, numa atitude de curiosidade em relação as suas histórias e necessidades. O caminho escolhido foi o de estabelecer uma conversação criando narrativas, nas quais, cada um poderia se sentir como legítimo responsável e autor da sua própria estória.Segundo Grandesso5 considera que nos constituímos como sujeitos na linguagem. O mundo em que vivemos é, portanto, um mundo lingüístico. O conceito de linguagem é aqui assumido como um meio universal da experiência, com função geral e não para dar conta de descrever um mundo previamente existente. Reforça-se, assim, a idéia de iniciar o primeiro encontro com o objetivo de conversar sobre as expectativas de cada um e refletir sobre como podería ser útil o acompanhamento e o desenvolvimento do trabalho solicitado.As palavras - idéia, descrição, explicação, significado e compreensão - são usadas, neste trabalho, de acordo com o entendimento de Andersen6 “Idéia como o vislumbrar de alguma coisa; uma descrição como uma imagem que pode estar em movimento, contendo as qualidades correspondentes aos sentidos de ver, ouvir, cheirar, provar, tocar e todas as sensações que vêm de dentro do corpo; explicação é a forma como a imagem pode ser compreendida; um significado inclui descrição e explicação, é um componente pessoal que a define; e a compreensão se aproxima do significado” (p.38). A partir das idéias e reflexões, compartilho com as idéias de Guanaes7 quando refere que a terapia de grupo pode ser pensada como recurso conversacional fértil para emergência de descrições alternativas. É um contexto útil para explorar novas versões de si, sentidos e possibilidades de vida, por meio do diálogo, uma vez que o grupo cria oportunidade para encontro de múltiplas e diferentes vozes. Bakhtin defendeu a impossibilidade de uma formação individual sem a participação de outros, apontando para o papel que estes ocupam na construção e delimitação de espaços pessoais de atuação no mundo (pág. 90-91). Isto dá     visibilidade e trânsito às incertezas, com a subjetividade e as multi-versões que permeiam a conversação. A ótica do Construcionismo Social (Gergen8) enfatiza a importância do processo lingüístico e a conversação dialógica. Nesta proposta estão inseridas as relações horizontais, a posição de não saber, na qual o terapeuta não é o especialista, e conferem uma posição de conforto ao terapeuta. Gergen enfatiza que o terapeuta não é exterior ao seu entorno social e que ampliar as estratégias de atendimento de família são resultado de compreender a implicação política e responsabilidade social do processo terapêutico. 

 

O primeiro encontro

O trabalho na Casa Lar dos adolescentes masculinos iniciou com a apresentação dos participantes: duas terapeutas (Ana Ibraima e eu), dois Pais Sociais (Marcelino, 35 anos; Maria Clara, 30 anos) e sete adolescentes (Paulo, 17 anos; Cássio, 15 anos; Ricardo, 14 anos; Leandro, 16 anos; Pedro, 13 anos; Jorge, 13 anos; e Luiz, 12 anos). Logo após, perguntei sobre as idéias que tinham sobre o nosso encontro e como se poderia utilizar aquele espaço. As conversas foram iniciadas pelos Pais Sociais, com a narrativa das inúmeras dificuldades sentidas no convívio com os jovens. Eles apresentaram as situações nas quais não sabiam como agir com o grupo. Citaram:

1) Roubos;

2) Fugas;

3) Uso de drogas;

 4) Brigas e agressões no grupo; e

 5) Falta de cuidados pessoais e com a casa.

A partir da fala dos Pais Sociais, solicitei que cada adolescente falasse o que estavam pensando enquanto os ouviam. As respostas dos adolescentes foram evasivas, desprovidas de interesse, parecendo que não tinham participado da decisão da procura de ajuda. Manifestei curiosidade em conhecer a realidade de viver em uma casa com sete adolescentes e seus Pais Sociais. Meu interesse estava focalizado em conhecer a construção da realidade que cada adolescente e Pai Social tinham deste contexto. Em um primeiro momento, percebi uma troca de olhares no grupo. Os adolescentes apresentavam-se assustados, intimidados e desconfiados para iniciar uma conversação. Houve um silêncio e minha posição de curiosidade aumentou.O grupo referiu, em consenso, a concordância dos cinco problemas destacados pelos Pais Sociais. Salientaram que cada um sabe quem rouba, no entanto, este tema não pode ser aberto, tendo em vista, o sentimento de medo das ameaças de agressão física que permeia no grupo. Um dos componentes do grupo, Paulo, diz -“É a lei do mais forte”.Um dos Pais Sociais, referiu que suas idéias sobre o roubo pode estar relacionada com as relações de poder, isto é, existem “alguns protetores dos outros, e que este papel dá o direito de roubar”. Neste momento, pensei que o sistema estava organizado como um agrupamento de pessoas com idéias comuns e que, enquanto mantivessem estas idéias com interesse comum, a organização prevaleceria.Percebi, assim, que estava diante de uma “abertura”, que na compreensão de Andersen“é uma expressão do sistema significativo, podendo ocorrer de muitas formas: como uma idéia, uma palavra chave, um tema ou uma amostra de comportamento analógico. Qualquer que seja sua forma, funciona como uma abertura para a maneira que uma determinada família organiza seu padrão de pensamento, seus comportamentos e a combinação de significados que representam coletivamente” (p.61). A palavra-chave roubo surgiu como um termo investido de forte significado para o grupo. Apesar da queixa estar dirigida a uma ou duas pessoas problemáticas, esta abertura oferece ramificações para todo o sistema. Percebi esta abertura como um convite para prosseguir o diálogo.Considerei expor uma pergunta: “Quem pode e gostaria de falar a respeito do roubo?” Minha idéia estava sendo construída na direção de ouvir a descrição e a compreensão de cada um sobre este fenômeno, isto é, conhecer como cada um cria sua versão da situação. À medida em que nosso diálogo se ampliava, formou-se um contexto de diversidade, com versões desvinculadas do certo ou errado. Tinha presente que a minha tarefa era a de empenhar-me com o objetivo de compreender como cada um criava suas descrições e explicações.Em seguida, convidei o grupo, para uma conversa, no sentido de debater a possibilidade de outras descrições ainda não percebidas e, talvez, outras explicações ainda não pensadas. De certo modo, estava convidando para se unirem a mim e trocarmos idéias, tendo em mente que sempre existe uma coisa que não foi percebida e algo ainda não pensado nos processos da vida. Fui criando possibilidades para o grupo começar a fazer novas associações, tais como, incluir os termos de respeito e confiança.As palavras respeito e confiança expandiram a discussão para outros problemas referidos, fazendo emergir o tema que estava movendo o comportamento analógico – a violência. Segui o processo de busca de significados da palavra “violência” para cada um em seu cotidiano: na casa, com o grupo, com os Pais Sociais, na escola, nos cursos profissionalizantes, na rua, na família e comigo. Essa abertura possibilitou uma concentração nos contextos relacionais dos pais sociais e dos adolescentes, explorando significados pragmáticos dos discursos. Os conflitos, portanto, deixaram de ser considerados problemas e passaram a ser vistos como construções concorrentes que permeavam a forma como o grupo compreendia a realidade. 

 

Construindo ressonâncias: vivência do medo e sua relação com a violência

Citarei uma outra cena vivida por mim, que senti e signifiquei como violência. Os atendimentos eram realizados à noite. Meu carro ficava no estacionamento da escola em frente da casa, do outro lado da estrada. A casa ficava num recuo com uma distância regular da estrada. Na frente, havia um campo gramado e cercado por arbustos. O acesso à casa era através de um corredor estreito ladeado pôr arbustos, neste campo.Quando entrei no corredor tive a sensação de que havia alguém escondido. Falei para a co-terapeuta que respondeu com a pergunta: Será? Respondi: Quem sabe é só sensação? Quando passei pelos arbustos ouvi um grito e reagi também gritando e me segurando na co-terapeuta. Eram quatro rapazes que saíram dos arbustos, começaram a rir, e perguntaram se nós nos assustamos. Não consegui responder. Bati na porta da casa e entrei. A primeira idéia que surgiu foi de termos passado por uma situação de violência.Neste encontro, iniciei com a descrição de meus sentimentos de medo qualificando como violenta as atitudes dos jovens. O comentário dos adolescentes foi: Isto é violência? Foi só uma brincadeira! Vocês não viram nada e não sabem o que é violência!O tema da violência foi uma abertura que possibilitou ao grupo, aos Pais Sociais, à co-terapeuta e a mim viver uma experiência compartilhada. Nesta, aparece uma multiplicidade de versões e significados da violência para cada um de nós e como as experiências vividas vão modelando os processos de relação. A partir daí criou-se entre todos os participantes uma atmosfera de confiança e respeito, que permitiu que cada um se sentisse confortável para descrever sua estória de vida pessoal.Inicialmente, a posição de escuta do grupo, enquanto ouvia as estórias de vida eram de risos e comentários desqualificantes. Para mim, os temas respeito, confiança e violência estavam contraditoriamente implícitos na interação. A explicação que tive, por parte dos adolescentes, quanto a esta interação desqualificante, é que fazia parte do modelo aprendido com suas famílias de origem. Pensei em ampliar o repertório aprendido, pontuando a interação desqualificante e ampliando-a. Levei-os a contatar e transitar nos sentimentos despertados. Cada um descreveu os sentimentos de desrespeito e baixa auto-estima, com certo constrangimento, fazendo conexões da interação no grupo com as representações, como um espelho ou reflexo da realidade de suas próprias famílias.Desta forma, cada jovem e cada Pai Social foi tomando consciência das inúmeras relações que auxiliam a compor a identidade de cada um. Essa forma de propor o desenvolvimento terapêutico possibilitou que o grupo co-construísse a sua identidade como grupo de interrelações. Ao mesmo tempo, possibilitou que cada um ampliasse a forma de descrever a si mesmo e ao outro. Novamente, essas idéias seguem as orientações de Gergen quanto a “multiplicidades narrativas”.  

 

Avaliando o processo

Tive a sensação de que esta experiência foi incomum e possibilitou pensar em projetos futuros, nos quais os difíceis caminhos do abandono, perdas, abuso e maus tratos podem ser trabalhados para não mais serem determinantes nas vidas desses adolescentes. Ficou lançada a semente de que cada um tem a capacidade de buscar outros caminhos, a partir do momento em que reconstruímos significados e construímos novas leituras para suas vidas. Algo abalou os significados instituídos pelos quais organizamos o mundo.Decorrido um ano do término do trabalho, realizei uma visita às Casas Lares para conversar com o grupo que ainda estava abrigado. Tinha o objetivo de saber como eles estavam e o efeito da experiência nas suas vidas. Na ocasião, encontrei-me com o grupo das adolescentes femininas e somente um adolescente masculino ainda estava na casa. Foi solicitada uma resposta escrita à pergunta: Em que foi útil, na tua vida, o trabalho que realizamos nestes dois anos? Eis as avaliações apresentadas pelos participantes: “Eu pessoalmente achei seu trabalho muito, super construtivo e eu mudei muito de antes para agora graças ao seu trabalho.” (Clara, 13 anos)“Como vai, tudo bem? Por aqui está tudo ótimo! Gostaria de lhe dizer o quanto foi importante para mim nossos momentos de terapia, pois ali aprendi a lidar com as pessoas, aprendi a ver o mundo de forma real e não em fantasias como antes. Agora sei também entender meus sentimentos, pois sei que não sou perfeita. E quem é? Entendo todas as minhas dúvidas e atitudes e isso já é um grande passo em minha vida!” (Mariana, 15 anos)“Bom, nos primeiros dias eu não gostei achei um xarope, mas depois eu comecei a me dar conta que aquelas reuniões estavam me fazendo bem. Agora eu estou conseguindo me expressar, falar o que eu gosto e o que eu não gosto, pois aprendi tudo isso graças a sua ajuda. Te digo uma coisa: valeu por tudo isso mesmo e gostei muito do atendimento.” (Maria, 16 anos)“Me ajudou em tudo, no trabalho, na rua com os amigos. Antes eu falava o que eu bem queria, agora eu me controlo e assumo o meu erro, mas quero que o outro assuma também.” (Cássio, 15 anos)“Gostei do tempo que esteve conosco, me ajudou muito nesse tempo.” (Elza, 12 anos)“Com carinho, te deixo um abraço. Adorei ter participado das reuniões. Cresci muito e vi que era possível eu não ter medo de tudo o que está para acontecer. Pelo pouco que tive junto no grupo, percebi que crescemos de lá para cá. Hoje estamos mais adultas crescemos e é agora que começamos a ir em busca de novos horizontes e novas amizades. Aprendi com o tempo a lutar pelo meu futuro e pelo que desejo. Mas ainda fica um ponto de interrogação: Será que vou conseguir lutar por tudo aquilo que desejo? Hoje estou com 17 anos e durante esses anos todos aprendi muito pouco, e também sei que nem tudo a gente aprende. Como minha avó falava: Nós morremos e não sabemos quase tudo. Vejo que minha luta nunca vai ser em vão, vou lutar com fé e esperança de que minha vida seja repleta de alegria e cada vez mais eu possa entender a realidade. Adorei ter te conhecido. Um grande abraço.” (Karem, 17 anos).  

 

Sentimentos despertados em ressonância

A experiência de estar com o grupo compartilhando raivas, descasos e desinteresse com o trabalho proposto, me possibilitou suportar estes sentimentos e contatar com as dores que o medo provoca diante de uma situação nova, tanto para o grupo como para mim. O contexto para mim também era imprevisível e sinto que os encontros se construíram legitimando cada fala. Tenho a convicção que o que possibilitou o contexto dos encontros durante estes dois anos foi a postura de respeito, curiosidade e sem julgamento diante das nossas diferenças, que nos desafiavam, em cada fala, para construir significados e co-construir realidades multiversas.  

 

 Referências

 

1- Fundação de Assistência Social e Cidadania da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Programa de abrigagem modalidade casa lar, 2005. Disponível em: http://lproweb.procempa.com.br/pmpa/prefpoa/fasc/usu_doc/edital.pdf#search=%22abrigagem%20em%20Casa%20Lar%20%22POrto%20Alegre%22%22 Acesso em 01/10/2006.

2- BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei federal 8.069/1990.

3- MORGAN, A. What is Narrative Therapy? An easy-to-read introduction. Adelaide: Dulweich Center Publication, 2000.

4- ELKAIM, M.. Se Você Me Ama, Não Me Ame: Abordagem Sistêmica em Psicoterapia Familiar e Conjugal. São Paulo: Papirus, 1990.

5- GRANDESSO, M. A. Sobre a Reconstrução do Significado: Uma análise Epistemológica e Hermenêutica da Prática Clínica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000.

6- ANDERSEN, T. Processos Reflexivos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.

7- GUANAES, C. A Construção da Mudança em Terapia de Grupo – um enfoque construcionista social. São Paulo: Vetor, 2006.

8- GERGEN, K. Construir la realidad: el futuro de la psicoterapia. Barcelona: Paidós, 2006.9- MATURANA, H. Emoções e Linguagem na Educação e na Política. Belo Horizonte: UFMG, 2001.


13/11/2007
por Leila Sigal Suslik

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