MARTíN (HACHE)
DIRETOR: Adolfo Aristarain
ANO: 1997
Comentários:
A recente exibição de Martin (Hache), penúltimo (e inédito comercialmente em nosso país) trabalho do diretor Adolfo Aristaraín confirma a nossa idéia, compartilhada pela maioria da crítica especializada, de que este é o grande narrador do cinema argentino e um dos maiores do cinema mundial.
Premiado em Gramado 93 como melhor filme por Um Lugar no Mundo, este buenairense que completou 60 anos no último dia 19 de outubro tem uma pequena mas admirável filmografia, cuja maior parte segue inédita no Brasil, por contas da hegemonia americana, que faz do nosso mercado uma reserva privada quase absoluta. Só as características oligopólicas podem explicar o ineditismo no circuito comercial de trabalhos notáveis e de apelo popular como Tempo de Revancha, Os Último Dias da Vítima e Martin( Hache), este último exibido, com legendas em árabe, num ciclo especial do Santander .
Aristarain iniciou sua carreira profissional em 1961 como extra no inédito(no Brasil) Dar la Cara, de José António Martinez Suárez, após freqüentar os meios boêmios da avenida Corrientes. Era um ávido leitor de Borges, Salinger, Pound, Prévert, Whitman e Arlt. Freqüentava cine-debates, concertos de jazz(estudou trompete),enquanto sobrevivia dando aulas de inglês, vendendo sorvete na rua ou livros e sabões de porta em porta. Tentou uma experiência como micro-empresário na pintura de paredes,antes de viver seis meses no Brasil,trabalhando no Rio na dublagem de filmes americanos para TV. De volta ao seu país, escreve o roteiro de um curta,Borges, de Luis Angel Bellaba, mas só no ano seguinte inicia efetivamente uma carreira cinematográfica,agora como segundo assistente de direção de nomes veteranos como Julio Saraceni, Román Viñoly Barreto,Emilio Vieyra, Enrique Cahen Sallaberry, Rodolfo Kuhn, Diego Santillán e Mario Camus. Graças a este diretor espanhol, muda-se para a Espanha,onde o assiste e a outros nomes famosos como Sergio Leone (Era uma vez no Oeste), Lewis Gilbert (O Mundo dos Aventureiros) ,Melvin Frank(Um toque de Classe), entre outros. Volta a Argentina em l974 e assiste Daniel Tinayre, Juan José Stagnaro, Juan José Jusid, Orestes Truco, Adrian Quiroga e Sergio Renan, antes de estrear como diretor de longa-metragem em l978 com o policial La Parte Del Leon.Saudado como uma revelação por sua competência narrativa e pela fusão do film noir com uma temática política, lembrando um Costa-Gavras portenho, no dizer dos queo viram. Filme de baixo orçamento – 80 mil dólares – que se não obteve o sucesso de público esperado,por uma série de fatores que vão da época de lançamento(outubro), seu caráter de filme de estréia e a estranha condição de ser um policial sem polícia, terminou virando filme de culto. O protagonista é um obscuro operário que um dia, acidentalmente, descobre uma fortuna roubada que resolve compartilhar com amigos. Mas logo se vê frente aos assaltantes, que lhe seqüestram a ex-mulher e a filha. Optando pela sobrevivência, o anti-herói se mostra capaz dos piores crimes. A competência na elaboração dos diálogos e condução da narrativa, além de grande talento na direção de atores, chama a atenção da produtora Áries para o diretor, a quem oferece a direção de duas comédias musicais de uma série de divulgação de cantores pop. Encarando estes projetos como forma de treinar seu ofício e inserir-se na indústria, Aristarain faz de La Playa del amor (1979) e Discoteca del amor(1980), no entender dos críticos, produtos comerciais e despretensiosos, mas artesanalmente dignos e ambos com Ricardo Darin, o aclamado intérprete de tres dos melhores filmes argentinos aqui lançados(Nove Rainhas, de Fabián Belinsky; O Filho da Noiva, de Juan José Campanella; e Kamchatka, de Marcelo Piñeyro).
PEDÁGIO
Pago o pedágio da indústria, Aristarain filma o notável Tempo de Revanche(1981), que, como seu filme seguinte, Últimos Dias da Vítima (1982), combina filme de ação e reflexão política e existencial ,tendo ambos sido exibidos em Porto Alegre em festivais de cinema argentino,longe do circuito comercial. Ambos tem como protagonista o excelente ator Federico Luppi,com quem o diretor desenvolverá profícua parceria a partir destes filmes. No primeiro, Luppi vive Pedro Bengoa, um especialista em explosivos e ex-líder sindical que vai trabalhar numa mina de empresa multinacional pródiga em violações das leis trabalhistas e de segurança. Com um amigo de seus tempos de militância, resolve simular um acidente para chantagear a empresa transgressora e ficará mudo, numa metáfora da sobrevivência num país calado pela força da repressão ditatorial. Nessa luta de um indivíduo contra o sistema, alicerçado num suspense digno de Hitchcock , o público argentino identificou toda uma realidade nacional e consagrou o filme,que ficou seis meses em cartaz. Tanto sucesso de público não obteve Últimos Dias de la victima, no qual Luppi é um assassino de aluguel que se transforma em caçador-caçado,que não interessa mais ao sistema perverso para quem executou uma série de tarefas.É uma clara denúncia do conluio da ditadura militar com o poder econômico local associado às corporações multinacionais,mas realizada com senso de espetáculo e obedecendo aos códigos narrativos clássicos. Isso irá garantir, aos dois filmes, uma vasta coleção de prêmios em festivais internacionais.
Para sobreviver, o diretor volta a Espanha em 1984 para realizar os oito episódios da telessérie policial Las Aventuras de Pepe Carvalho , inspirada no personagem do recentemente falecido Manuel Vázquez Montalbán. O escritor abominou a adaptação, mas a série terminou marcando o encontro com a atriz Cecília Roth, outra que se uniria a troupe Aristarain e que trabalharia no filme seguinte, a co-produção americana The Stranger (1987), que nunca seria estreada no Brasil ou na Argentina. Protagonizada por Bonnie Bedelia, fazendo as vezes de uma amnésica em busca de seu passado e identidade, foi rejeitada por Aristarain, que a considera seu maior fracasso,graças a um roteiro absurdo e inconseqüente.
A OBRA-PRIMA
Finalmente, em 1991, o momento de graça. Mesclando sua admiração pelos westerns de John Ford e George Stevens à sua visão político-existencial, Aristarain realiza o extraordinário e tocante Um Lugar no Mundo, até agora seu único filme lançado comercialmente no Brasil. É uma história de iniciação ao mundo adulto, narrado por um adolescente, Ernesto, que mora com os pais em Valle Bermejo, no interior da Argentina. O casal formado pelo sociólgo Mario(Federico Luppi) e sua mulher, a médica Ana(Cecilia Roth), volta do exílio para trabalhar cooperativamente com os camponeses de uma comunidade dedicada ao pastoreio ovino. Do grupo faz parte Nelda (Leonor Benedetto),uma freira militante, e Hans (José Sacristán), um geólogo espanhol contratado por uma multinacional para prospectar a região com vistas à construção de uma represa. Aqui se destaca a figura de Mario, o esquerdista que segue compromissado com seus ideais e sua ética humanista, tentando adaptar-se à realidade de uma nova época,sem sacrificar sua visão generosa e participante do mundo. Como escreve Clara Krieger a respeito deste Shane (Os Brutos Também Amam ) à argentina, “tendo enfrentado a derrota, os personagens querem vencer o medo e a melancolia para poderem voltar a agir”. Quando Ernesto adulto volta ao cenário de sua infância, ele busca - na verdade - os referenciais que indiquem qual o seu lugar no mundo. E tudo isso filtrado por uma poesia e uma ternura pelos personagens que cativam qualquer espectador sensível.
Aliás, essa é uma característica dos demais filmes do diretor, como o revigorante La Ley de la Frontera (l995),co-produção rodada na Galícia, junto à fronteira com Portugal. João,(Pere Ponce), padre de origem burguesa, e o proletário Xan(Achero Mañas,o diretor de El Bola), unem suas vidas para tentar um destino melhor, fazendo-se passar por bandoleiros. A eles se agregam a fotógrafa americana Bárbara (Aitana Sánchez-Gijón) e o bandoleiro El Argentino(Federico Luppi), unidos na luta anti-franquista. Um delicioso e irreverente filme de aventuras que alude com visão espetacular à questão eterna da luta de classes.
Seguem-se,finalmente, os dois últimos trabalhos do diretor argentino, marcados pela nostalgia e pela intensidade dramática. Em Martin ( Hache), ou Martin H., o protagonista homônimo ,um adolescente argentino ( JuanDiego Botto) tenta estabelecer contato com o pai cineasta(Federico Luppi) ,seu homônimo, radicado em Madrid desde as épocas da ditadura argentina . Homem introvertido, narcisista, solitário, tem dificuldades imensas de relacionamento, incapaz de trocar afeto com Alicia(Cecília Roth), que compensa na droga o desprezo egoísta do amante. Seu melhor amigo é Dante(Eusébio Poncella), um ator bissexual e epicurista, que funciona como uma espécie de consciência desse homem in- capaz de amar. Centrado na descrição primorosa delpersonagens exemplares e em diálogos plenos de veracidade e intensidade, o filme discute em profundidade um sem número de questões típicas da modernidade e até atemporais, como a capacidade de amar e de trocar sentimentos, a relação de casal, a relação pai e filho, o egoísmo narcisista típico de nossos tempos, o uso da droga, a busca de uma identidade, tudo isso sem cair nos lugares comuns, aliás, título do último filme de Aristarain,que concorreu pela Argentina no último festival de Gramado, obtendo o prêmio de melhor atriz para a espanhola Mercedes Sampietro,que faz o papel da assistente social Liliana, casada com o professor universitário aposentado Fernando Robles (Federico Luppi). É um filme sobre sexagenários que lutam desesperadamente para sobreviver num país que condena suas maiorias e minorias ao sacrifício e à indignidade, negando-lhes uma aposentadoria justa que premie toda uma existência de dedicação e trabalho. Lugares Comunes (que se chamará Lugares Comuns em nosso país) trata do cotidiano, mas de forma sábia,serena,equilibrada. Eu ousaria dizer: zen. Nada é ignorado, mas no centro de tudo segue o ser humano em sua trajetória rica de acertos e equívocos pela orbe terrestre. Esse caminho que todos nós percorremos com, maior ou menor lucidez e sucesso, aqui valorizado pela revelação de um amor tão difícil quanto possível, feito de carinho, ternura, interesse pelo par e pelos demais seres humanos, integridade,fidelidade, que são os pressupostos básicos da amizade e tornam a trajetória menos íngreme e com mais sentido. É lamentável que desta filmografia tão preciosa o grande público só tenha acesso a duas de suas pérolas. Procure numa vídeolocadora de melhor nível,com rico acervo como a Espaço Vídeo,a Vivivídeo ou a Vídeotres,naCapital, e peça pelo VHS de Um Lugar no Mundo. E aguarde,breve, nos cinemas, Lugares Comuns. São obras-primas que enriquecem quem as vê. E você,certamente, se reconhecerá e se identificará com os personagens,que podem não ser médicos mas tem,como a maioria de nós, esse compromisso com o humanismo.
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